Adaílton Fúria entrou no debate da REMA TV apresentando-se como ex-vereador, ex-deputado estadual e ex-prefeito preparado para governar Rondônia. Ao longo da transmissão, porém, os momentos de maior repercussão envolvendo sua participação não surgiram das realizações administrativas citadas por ele, mas de acusações dirigidas a Samuel Costa e Marcos Rogério. As duas situações resultaram em direitos de resposta concedidos pela banca formada por advogados da OAB.
A primeira controvérsia começou com uma discussão sobre alianças políticas. Samuel perguntou qual função Expedito Júnior exerceria em uma eventual gestão de Fúria e lembrou que o ex-senador e o governador Marcos Rocha, atualmente reunidos no mesmo campo político, estiveram em lados opostos na disputa estadual de 2018.
Fúria afirmou que Expedito Júnior não teria espaço algum no governo. A mesma resposta foi dada sobre Marcos Rocha. Segundo ele, o governador apoiava a candidatura, mas encerraria o mandato sem participar da administração seguinte. O candidato também sustentou que sua trajetória eleitoral não dependia dos dois aliados.
O esclarecimento ocupou apenas parte da resposta. Fúria passou a questionar por que Samuel considerava o assunto relevante e classificou a pergunta como sem futuro. Em seguida, afirmou: “Não sei se o senhor está tendo alguém, está sendo pago por alguém, não sei.”
A frase introduziu uma suspeita de natureza financeira sem que fossem apresentados documentos, nomes de supostos financiadores, movimentações bancárias ou qualquer outro dado verificável. A possibilidade de pagamento foi lançada como resposta a uma pergunta sobre a distribuição de poder dentro da aliança política.
Samuel respondeu que era o segundo candidato mais rico entre os participantes do debate e que possuía patrimônio duas vezes superior ao de Fúria. Depois, intensificou os ataques, acusando o adversário de trair Marcos Rocha, abandonar Expedito Júnior e utilizar a estrutura do governo para levar comissionados às ruas.
As acusações feitas por Samuel também não foram demonstradas documentalmente durante o programa. A banca, inclusive, concedeu posteriormente direito de resposta a Fúria. No minuto autorizado, o candidato declarou ser alvo de ataques diários de páginas patrocinadas por políticos e afirmou que as mesmas perguntas sobre Marcos Rocha eram repetidas em diferentes debates.
O episódio poderia ter encerrado a disputa entre os dois. Mais tarde, no entanto, o sorteio voltou a colocá-los frente a frente. Samuel pediu que Fúria identificasse uma secretaria do governo estadual que substituiria integralmente e apontasse políticas de Marcos Rocha que deveriam continuar.
A pergunta tinha dois componentes objetivos: o que seria mantido e o que seria mudado. Fúria respondeu que muita coisa havia dado certo e muita coisa precisava melhorar. Citou genericamente segurança, saúde e educação, mas não indicou a secretaria solicitada.
Em vez de especificar a estrutura que modificaria, voltou a atacar a motivação de Samuel. Disse acreditar que o candidato tinha algum problema “espiritual” com Marcos Rocha e sugeriu a realização de um debate entre os dois. Também informou não saber onde o governador se encontrava naquele momento, mencionando a possibilidade de uma viagem à China.
A resposta prosseguiu com referências aos servidores estaduais e à biografia de Fúria. Ele disse ter engraxado sapatos, vendido picolés e trabalhado como repositor de mercado, além de afirmar que havia frequentado a “faculdade da vida”. Recordou a passagem pelos cargos de vereador, deputado e prefeito e citou divergências com Marcos Rocha durante a pandemia.
Samuel usou a réplica para comparar o comportamento de Fúria ao de um personagem de desenho animado. “O candidato Fúria está parecendo um Pokémon aqui, um Pikachu, todo brabinho”, afirmou. Depois insistiu que o concorrente não assumia integralmente as alianças com Marcos Rocha e Expedito Júnior.
Também repetiu que servidores comissionados seriam coagidos a participar da campanha. A acusação não foi acompanhada de provas na transmissão. Fúria respondeu corretamente que qualquer servidor submetido a coação deveria denunciar o caso ao Ministério Público e que ninguém poderia ser obrigado a pedir votos.
A tréplica, contudo, deixou novamente o campo institucional. Fúria declarou que Samuel não tinha respeito pelas pessoas, mencionou uma fala de outro debate e afirmou que seria necessário investigar se o adversário recebia dinheiro.
Desta vez, a insinuação foi acompanhada de uma afirmação mais direta. Fúria disse que o pagamento provavelmente ocorria porque o histórico de Samuel e as informações que teria ouvido indicavam que aquilo acontecia em todos os anos eleitorais. A acusação permaneceu baseada no que o próprio candidato disse ter ouvido.
A equipe de Samuel pediu direito de resposta. A mediação informou que a banca julgadora da OAB deferiu o pedido. Durante o minuto, Samuel negou ter recebido dinheiro, afirmou que sua renda era declarada e colocou à disposição os próprios sigilos bancário e fiscal.
Samuel aproveitou o restante do tempo para questionar Fúria sobre operações da Polícia Civil realizadas durante sua administração, citando “Draco 1 e Draco 2”. Nenhuma responsabilidade pessoal de Fúria foi comprovada pela simples menção das operações. O direito de resposta, porém, permitiu ao adversário transformar uma acusação recebida em nova cobrança contra o autor da fala.
A segunda situação que terminou com um concorrente ocupando sozinho o púlpito começou em um debate sobre saúde e distritos. Marcos Rogério havia descrito procedimentos financiados em municípios do interior e pedido que Fúria detalhasse sua política para as comunidades distritais.
Fúria respondeu criticando a ausência de Ji-Paraná na relação apresentada pelo senador. Perguntou repetidamente qual problema Rogério teria com a cidade e defendeu a estadualização do hospital municipal. Também falou sobre a sobrecarga das estruturas de Cacoal e Porto Velho, a distribuição de procedimentos e a necessidade de levar clínicas ao interior.
O candidato mencionou Extrema no final de sua resposta, mas não detalhou um programa específico para o conjunto dos distritos. Rogério apontou essa ausência na réplica e vinculou as dificuldades de Ji-Paraná ao governo Marcos Rocha, apoiador da candidatura de Fúria.
Na tréplica, Fúria deixou a pergunta sobre os distritos e declarou que Rogério havia destinado R$ 14 milhões de uma emenda individual para um museu em Brasília. Segundo ele, o valor saiu do orçamento individual do senador em 2020.
Fúria repetiu a acusação quando foi sorteado para fazer uma pergunta a Pedro Abib. Antes de abordar a saúde materno-infantil, pediu à equipe de redes sociais que publicasse um extrato dos R$ 14 milhões. Afirmou que o dinheiro havia sido encaminhado por Rogério e comparou o montante com o preço do cimento na época.
A declaração reunia três elementos específicos: a autoria exclusiva atribuída a Rogério, o valor de R$ 14 milhões e a classificação do recurso como emenda individual. Foi justamente essa formulação que o senador contestou ao receber direito de resposta.
Após o intervalo, a mediação informou que a assessoria de Rogério havia apresentado o pedido e que a banca da OAB concedera um minuto. O senador classificou a fala como “desinformação” e “fake news” e afirmou que sua emenda foi de R$ 500 mil.
Segundo Rogério, o Museu da Bíblia recebeu contribuições de deputados e senadores de diferentes partes do país, a pedido da Sociedade Bíblica do Brasil. A diferença entre as duas versões não era pequena: Fúria responsabilizava individualmente o senador pelos R$ 14 milhões, enquanto Rogério reconhecia R$ 500 mil como parcela própria dentro de um conjunto de destinações parlamentares.
O senador acrescentou que a Justiça já havia determinado a retirada de outras publicações falsas produzidas pela campanha do adversário. Essa informação foi apresentada por Rogério durante o direito de resposta, sem exibição das decisões citadas.
Depois do minuto, o debate seguiu para outros temas. Fúria voltou à acusação em uma pergunta posterior a Pedro Abib sobre segurança pública. Disse que o museu de R$ 14 milhões estava registrado no Transferegov em nome de Rogério e mencionou uma primeira etapa superior a R$ 2 milhões. O documento não foi colocado na tela, impedindo que o público comparasse imediatamente o valor total do projeto com a emenda individual admitida pelo senador.
O confronto com Abib também expôs Fúria a questionamentos sobre uma das principais realizações reivindicadas por ele. Ao ser perguntado sobre saúde materno-infantil, Abib apresentou dados de mortalidade e afirmou que o ex-prefeito havia entregue um hospital incompleto em Cacoal poucos dias antes de deixar o cargo.
Fúria respondeu que a maternidade municipal registrava entre 15 e 20 mortes anuais de bebês antes de sua administração e que, após as mudanças, passou a apresentar taxa zero. Citou equipamentos e afirmou que a unidade neonatal se tornou referência. Abib contestou e disse que era necessário observar “dados e realidade, não narrativas”, além de questionar a entrega do hospital no fim do mandato. O programa não realizou checagem independente dessas versões.
Outra contradição ocorreu diante de Expedito Netto. O candidato afirmou ter destinado recursos que contribuíram para creches concluídas em Cacoal. Fúria disse que as unidades não haviam sido custeadas por emendas dele e que o repasse de R$ 12 milhões se destinava a equipamentos.
Netto respondeu que os R$ 12 milhões eram apenas uma rubrica e que havia enviado quantias maiores, inclusive recursos sem aplicação previamente indicada. A divergência não gerou direito de resposta, mas impediu que a afirmação de Fúria sobre a origem dos valores ficasse sem contestação.
As situações seguiram um padrão verificável. Quando pressionado sobre aliados, Fúria deslocou a resposta para a possibilidade de Samuel receber dinheiro. Quando cobrado a detalhar uma política para os distritos, transferiu o confronto para a destinação de recursos de Rogério. Quando teve de perguntar a Abib sobre saúde, utilizou parte do tempo para repetir a acusação do museu. Quando voltou a enfrentar Samuel, não indicou a secretaria solicitada e retomou a suspeita financeira.
O candidato também apresentou propostas e realizações. Falou de regionalização da saúde, hospitais, agricultura familiar, regularização fundiária, horas-máquina, estradas, creches, saneamento e experiências de Cacoal. O recorte negativo não elimina essas participações, mas registra que elas dividiram espaço com ataques que provocaram intervenções formais da banca.
Ao terminar a transmissão, Fúria havia recebido um direito de resposta e provocado outros dois. A diferença esteve na origem de cada situação. O minuto concedido a ele decorreu das acusações formuladas por Samuel no primeiro confronto. Os minutos dados a Samuel e Rogério surgiram depois de declarações feitas pelo próprio Fúria.
O resultado mensurável foi que dois adversários receberam tempo exclusivo para negar, corrigir ou devolver acusações do candidato. Samuel pôde rejeitar a suspeita de pagamento e questionar a gestão de Cacoal. Rogério pôde apresentar o valor de R$ 500 mil, classificar a cifra de R$ 14 milhões como falsa e acusar a campanha de reincidência. Ao substituir respostas objetivas por ataques sem comprovação exibida, Fúria não encerrou as controvérsias: forneceu aos adversários a oportunidade regulamentar de ampliá-las.
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