O PSOL tem o direito de escolher Luiz Carlos Teodoro como pré-candidato ao Governo de Rondônia. Teodoro, por sua vez, tem o direito de mudar de partido, rever pensamentos e até abandonar convicções antigas. O que nenhum dos dois pode pretender é que uma mudança dessa dimensão aconteça sem perguntas, sem explicações e sem o exame da trajetória política que antecedeu essa súbita aproximação com a esquerda.
Luiz Carlos Teodoro não chegou ao PSOL depois de uma caminhada conhecida nos movimentos socialistas, no sindicalismo, nas organizações populares ou nas correntes historicamente associadas à legenda. Seu itinerário político recente aponta em outra direção.
Em 2020, ele foi candidato a vice-prefeito de Guajará-Mirim pelo Partido Social Cristão, o PSC, na chapa encabeçada por Taíssa Sousa, do PV. A coligação reunia PV, PSC e PROS, mas o partido de Teodoro era inequivocamente o PSC.
Isso não transforma automaticamente Teodoro em bolsonarista. Filiação partidária não é certificado definitivo de pensamento individual. Mas também não é um detalhe sem significado.
O PSC apoiou Jair Bolsonaro no segundo turno presidencial de 2018 e voltou a apoiar sua reeleição em 2022. Ao anunciar o apoio mais recente, a própria direção partidária afirmou que Bolsonaro representava bandeiras conservadoras da legenda, como a defesa da família, da vida desde a concepção, da segurança e da liberdade econômica.
Era, portanto, uma organização situada no campo conservador, próxima ao bolsonarismo nos momentos eleitorais decisivos e distante das concepções programáticas do PSOL.
Enquanto esteve nesse ambiente, Teodoro não aparentava constrangimento. Em publicação feita em 2020, apareceu ao lado de Pastor Everaldo e o apresentou como presidente nacional do PSC. Em 2023, depois da incorporação da legenda pelo Podemos, publicou uma mensagem na qual declarou: “Eu sou o Luiz, e nós do PSC, que hoje é Podemos 20”. Em 2024, ainda era apresentado publicamente como possível pré-candidato a prefeito de Guajará-Mirim pelo Podemos.
Dois anos depois, Teodoro foi oficializado como pré-candidato do PSOL ao Governo de Rondônia.
A mudança não é apenas de sigla. É uma travessia entre universos políticos que, em temas centrais, se encontram em posições opostas. De um lado, um partido que apoiou Bolsonaro e se apresentava como conservador nos costumes. Do outro, uma legenda socialista que combateu o bolsonarismo, defende direitos reprodutivos, movimentos populares, diversidade, reforma agrária e maior presença do Estado na redução das desigualdades.
Pessoas mudam. Políticos também podem mudar. Mas uma mudança verdadeira precisa ser explicada.
Quando Teodoro deixou de se identificar com o pensamento do PSC? Quais posições conservadoras abandonou? Em que momento passou a concordar com o programa do PSOL? O que pensa sobre aborto, privatizações, armamento da população, demarcações indígenas, direitos LGBTQIA+, legalização das drogas e ocupações de terra? Em quem votou para presidente em 2018 e em 2022? Apoiou Bolsonaro, anulou o voto ou escolheu outro candidato?
Sem essas respostas, o que se vê não é necessariamente uma conversão ideológica. Pode ser somente mais uma troca de legenda conforme as oportunidades eleitorais disponíveis.
A situação se torna ainda mais desconfortável quando se examina o posicionamento de Teodoro sobre os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023.
A atuação de um advogado ou de uma comissão de direitos humanos em favor de presos não deve ser condenada. Direitos fundamentais não pertencem à esquerda nem à direita. Atendimento médico, respeito à integridade física, duração razoável da prisão preventiva e direito de defesa precisam ser assegurados inclusive a quem professa ideias antidemocráticas.
O problema político não está em Teodoro ter defendido direitos de presos bolsonaristas. Está na maneira como ele resolveu interpretar publicamente os acontecimentos.
Durante o RD Entrevista, o pré-candidato declarou: “Eu não quero acreditar que são terroristas, de forma nenhuma. Eu acho que, com algumas pessoas, houve um excesso”.
Também relatou visitas a presídios e reproduziu queixas de envolvidos no 8 de Janeiro que diziam ter sido abandonados pelos políticos que os incentivaram a viajar para Brasília.
Essa não foi apenas uma manifestação técnica sobre garantias processuais. Foi uma leitura política que suavizou a gravidade do episódio e concentrou a atenção no abandono sofrido pelos participantes, muitos deles ligados ao bolsonarismo.
A posição contrasta frontalmente com a direção nacional do próprio PSOL. No dia dos ataques, o partido classificou a invasão do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal e do Palácio do Planalto como tentativa de golpe de Estado. A legenda defendeu a identificação e a punição exemplar dos envolvidos, mencionando expressamente os terroristas envolvidos nos atos de depredação e seus financiadores.
Teodoro pode discordar do PSOL. Um partido democrático não precisa exigir pensamento único. Mas o eleitor tem o direito de saber se a divergência é pontual ou se revela que o candidato está ideologicamente mais próximo do campo que pretende combater do que da legenda que agora lhe oferece palanque.
Não é possível chamar Luiz Carlos Teodoro de bolsonarista apenas porque ele defendeu direitos de presos do 8 de Janeiro. Também não é possível aplicar esse rótulo exclusivamente porque ele rejeitou a generalização da palavra “terroristas”.
Mas é legítimo estranhar que um pré-candidato de esquerda seja tão enfático na humanização política dos envolvidos, enquanto evita empregar a mesma contundência para reconhecer o caráter golpista do movimento que culminou na invasão das sedes dos Poderes.
A trajetória pelo PSC amplia essa estranheza. Isoladamente, cada episódio comporta explicações. Reunidos, porém, eles formam um conjunto que Teodoro precisa enfrentar.
Há ainda a acusação da Liga dos Camponeses Pobres. Em nota sobre a Operação Godos, a LCP chamou Teodoro de bolsonarista e afirmou que ele teria ajudado a montar uma associação de produtores rurais na área Tiago Campin dos Santos para se opor à Liga e sabotar sua organização junto às famílias camponesas.
O movimento também alegou que integrantes dessa associação teriam atuado em colaboração com agentes públicos.
A acusação da LCP não é prova.
Até que sejam apresentados atas, registros, mensagens, testemunhos verificáveis ou decisões judiciais, não se pode transformar a narrativa do movimento em fato consumado. Tampouco é correto reproduzir como verdade a afirmação de que Teodoro seria bolsonarista ou colaborador de uma operação destinada a enfraquecer a luta pela terra.
Mas a gravidade da acusação exige resposta objetiva.
Teodoro participou ou não da criação dessa associação? Prestou assessoria jurídica? Quem eram seus dirigentes? Qual era sua relação com os moradores contrários à LCP? Manteve contato com representantes do Incra ou das forças de segurança sobre a organização interna da área? Há documentos capazes de demonstrar o que realmente aconteceu?
Ignorar a acusação não fará com que ela desapareça.
O PSOL também deve explicações. A legenda investigou o passado partidário de seu pré-candidato? Conhecia sua relação com o PSC e com o Podemos? Debateu internamente suas posições sobre o 8 de Janeiro? Exigiu compromisso com o programa partidário? Ou simplesmente encontrou alguém disposto a ocupar uma candidatura majoritária num estado em que o partido possui reduzida estrutura eleitoral?
Não se trata de exigir pureza ideológica. Partidos que desejam crescer precisam receber pessoas vindas de outras tradições. O que se exige é coerência, transparência e respeito ao eleitor.
Luiz Carlos Teodoro ainda não pode ser definido, com base nos elementos públicos disponíveis, como bolsonarista infiltrado no PSOL. Essa seria uma conclusão maior que as provas.
Pode-se afirmar, entretanto, que sua caminhada política conhecida esteve durante anos muito mais próxima do conservadorismo de direita do que de qualquer flanco socialista.
Pode-se afirmar que ele militou no PSC, identificou-se posteriormente com o Podemos, aproximou-se publicamente de Pastor Everaldo e somente depois apareceu como candidato do PSOL.
Pode-se afirmar também que sua interpretação do 8 de Janeiro colide com a posição oficial da legenda que agora pretende representar.
O problema não é ter mudado.
O problema é querer chegar ao outro lado sem explicar como atravessou a ponte.
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