A distribuição dos recursos do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) pelo PSD em Rondônia começa a transformar o dinheiro da campanha em um dos principais pontos de tensão dentro da própria legenda.
Dos R$ 10,5 milhões destinados pelo partido às campanhas no Estado, R$ 6,5 milhões foram direcionados ao casal Adailton Fúria e Joliane Fúria. Candidato ao Governo de Rondônia, Fúria recebeu R$ 5 milhões, enquanto sua esposa, candidata a deputada federal, recebeu R$ 1,5 milhão.
Somados, os dois concentram aproximadamente 61,9% de todo o volume de recursos distribuído pelo PSD em Rondônia.
O restante da nominata ficou com uma parcela consideravelmente menor do bolo. Jaqueline Cassol recebeu R$ 1 milhão; Rosária Helena e Pastor Evanildo, R$ 800 mil cada. Já Daniel Pittbull, Adilson Honorato, Fernando Vilas Blueray e Júnior Lopes Becão receberam R$ 100 mil cada.
A matemática, por si só, já seria suficiente para provocar discussão. Politicamente, porém, a diferença entre os repasses começa a produzir um efeito ainda mais incômodo: candidatos da própria legenda passaram a questionar se existe, de fato, uma estratégia coletiva de campanha ou se os recursos estão sendo concentrados prioritariamente em poucos nomes.
Um partido, vários tratamentos
A diferença é expressiva.
Enquanto Fúria recebeu R$ 5 milhões para a disputa pelo Governo, alguns candidatos da própria nominata receberam apenas R$ 100 mil. Na prática, isso significa que o candidato ao Executivo estadual recebeu 50 vezes mais recursos do que os candidatos que ficaram na faixa de R$ 100 mil.
A concentração também chama atenção quando se observa o desempenho financeiro do casal. Sozinhos, Adailton e Joliane ficaram com mais dinheiro do que todos os demais nomes que receberam R$ 100 mil, somados várias vezes.
É justamente essa disparidade que começa a gerar desconforto nos bastidores.
A questão não é apenas quanto cada candidato recebeu, mas o que a distribuição representa politicamente dentro da legenda. Para integrantes da nominata que precisam disputar votos, estrutura, material de campanha, publicidade e presença nas ruas, receber uma fração muito menor dos recursos pode ser interpretado como sinal de prioridade partidária.
E é aí que o dinheiro começa a virar problema político.
Insatisfação pode cobrar preço na reta final
Embora a legislação eleitoral permita que os partidos estabeleçam critérios para distribuição dos recursos, a liberdade para definir os repasses não impede que os próprios candidatos questionem politicamente as escolhas feitas pelas direções partidárias.
No caso do PSD de Rondônia, a diferença entre os valores pode criar um problema que nenhum fundo eleitoral consegue resolver: a falta de unidade entre os próprios candidatos.
Uma candidatura majoritária depende não apenas de dinheiro, mas também de uma estrutura política espalhada por todo o Estado. Vereadores, candidatos proporcionais, lideranças locais e militantes são peças importantes para ampliar o alcance de uma campanha.
Quando parte dessa estrutura entende que foi deixada em segundo plano, a conta pode aparecer justamente no momento em que o candidato mais precisa de apoio.
E se houver segundo turno?
É nesse ponto que surge uma possibilidade que começa a circular nos bastidores políticos de Rondônia.
Caso Adailton Fúria avance para um eventual segundo turno e tenha pela frente Marcos Rogério, do PL, integrantes da nominata do PSD que estejam insatisfeitos com a distribuição dos recursos poderiam, em tese, optar por apoiar o adversário.
Não existe, até o momento, decisão formal, declaração coletiva ou anúncio oficial de que candidatos do PSD apoiarão Marcos Rogério.
Portanto, tratar esse movimento como algo já definido seria precipitado.
Mas a possibilidade existe no campo das articulações políticas — e a distribuição do fundo eleitoral pode se tornar um dos ingredientes dessa negociação.
Na política, especialmente em uma eleição majoritária, apoio não se resume a declaração pública. Pode significar estrutura, palanque, militância, prefeitos, vereadores, lideranças e, principalmente, capacidade de mobilização.
O risco de uma campanha dividida
O problema para Fúria é que uma candidatura ao Governo precisa vender a imagem de força e unidade.
Ter R$ 5 milhões à disposição enquanto candidatos da mesma legenda recebem R$ 100 mil cria uma fotografia difícil de ignorar.
De um lado, o grupo majoritário do partido pode argumentar que uma eleição para o Governo exige naturalmente mais recursos e estrutura.
Do outro, candidatos proporcionais podem questionar até que ponto a concentração dos recursos fortalece o partido como um todo ou apenas determinadas candidaturas.
É justamente nesse choque de interesses que pode surgir um desgaste interno.
E há um detalhe político importante: os candidatos que hoje disputam votos lado a lado continuarão fazendo política depois da eleição.
A conta pode chegar depois das urnas
Se Fúria vencer no primeiro turno, o problema pode perder força rapidamente.
Mas, se houver segundo turno, a situação muda.
O candidato precisará ampliar alianças, buscar apoio de outras forças políticas e mobilizar lideranças que, até então, podem estar insatisfeitas com a condução da campanha.
Nesse cenário, uma nominata dividida pode deixar de ser apenas um problema interno do PSD e se transformar em uma questão estratégica para a disputa pelo Governo.
Marcos Rogério, por sua vez, poderia tentar ocupar esse espaço e transformar o descontentamento de adversários internos de Fúria em apoio político para sua própria candidatura.
Não significa que isso acontecerá. Significa que existe um ambiente político favorável para que essa conversa aconteça caso o segundo turno se confirme.
A matemática que incomoda
Os números ajudam a dimensionar o tamanho da diferença:
- PSD em Rondônia: R$ 10,5 milhões distribuídos;
- Adailton Fúria: R$ 5 milhões;
- Joliane Fúria: R$ 1,5 milhão;
- Casal Fúria: R$ 6,5 milhões;
- Participação do casal no total: aproximadamente 61,9%;
- Jaqueline Cassol: R$ 1 milhão;
- Rosária Helena: R$ 800 mil;
- Pastor Evanildo: R$ 800 mil;
- Daniel Pittbull: R$ 100 mil;
- Adilson Honorato: R$ 100 mil;
- Fernando Vilas Blueray: R$ 100 mil;
- Júnior Lopes Becão: R$ 100 mil.
A pergunta que fica nos bastidores não é apenas quem recebeu mais dinheiro.
É outra: o PSD está financiando uma campanha para o Governo ou construindo uma estratégia eleitoral para toda a sua nominata?
A resposta, ao que tudo indica, será dada menos pelos discursos oficiais e mais pelo comportamento dos candidatos durante a campanha — e, principalmente, pelo posicionamento de cada um caso Rondônia tenha segundo turno.
Até lá, qualquer eventual apoio a Marcos Rogério permanece no campo das articulações e especulações políticas. Mas uma coisa já está evidente: os R$ 10,5 milhões do PSD não foram distribuídos de forma capaz de agradar a todos.
E em política, quando o dinheiro é concentrado em poucos, a insatisfação costuma procurar espaço para aparecer nas urnas.
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